CAÇADA

Carolzinha tentava colocar a coleira do tipo peitoral na cadelinha enquanto o marido reclamava no sofá. A perna quebrada incomodava, claro, e ele fazia questão de lembrar a esposa disso várias vezes ao dia. Carolzinha não se incomodava em trazer comida, uma cerveja de vez em quando, ajudá-lo a ir ao banheiro. Mas levar a cachorrinha para o passeio noturno era mesmo uma chateação.

Arrumou por fim a coleira, entregou um sanduíche na mão do marido,  e calçou o belo tênis de caminhada que ela havia comprado porque tinha cores tão fofas, mas usou só uma vez. O cabelo longo, liso e loiro, preso num rabo de cavalo impecável, a calça legging confortável, Carolzinha estava pronta para o passeio noturno.

Saiu ao anoitecer e foi deixando o bichinho cheirar árvores e postes, prestando atenção para que a roupinha rosa de bolinhas e os lacinhos de fita colocados no pet shop caro não se sujassem nem se prendessem nas moitas bem cuidadas da vizinhança. Aguardou os xixis e cumprimentou vizinhos, crianças e outros donos de cachorros que passeavam no mesmo horário. Com muito nojo recolheu o cocô dentro de um saquinho estampado de ossinhos pink e jogou numa lixeira próxima. Aliviada, voltou para casa.Dog-of-Honor-Tutu

Nos dias seguintes, enquanto o marido se lamuriava no sofá, Carolzinha levou a cadelinha para suas caminhadas noturnas, aguardando paciente o xixizinho tímido de cachorro miúdo, fazendo careta ao recolher o cocô. Então lá pelo fim da semana, quando o tênis de caminhada já tinha laceado ao ponto de realmente ficar confortável e cumprir sua função, Carolzinha passou por um dos vários terrenos baldios que ainda existiam no bairro de classe média alta em expansão. Ali a cadelinha, lacinho na cabeça, roupinha branca de flores lilás, recém saída de um banho, começou a rosnar. Carolzinha se espantou, já que a bichinha era calma. Antes que pudesse ver o que tinha chamado a atenção da cadela, a cachorrinha disparou para dentro do terreno por entre o mato alto e mal cuidado, sem dar tempo a Carolzinha de travar a guia retrátil. Puxou com insistência a guia enquanto escutava um alarido de rosnados e latidos. De repente a guia relaxou e a cadelinha estava de volta. Entre seus dentes pequenos uma enorme ratazana acinzentada, ainda tremendo, o sangue jorrando em profusão do pescoço.

Carolzinha sentiu as pernas amolecerem e um arrepio fino percorrer o corpo. A cadelinha se aproximou e depositou com ar orgulhoso o animal já morto aos seus pés, troféu e presente para a dona. Em choque Carolzinha cambaleou de volta pra casa. Correu com a cadela para a área de serviço e entre o nojo e o espanto limpou os restos da caçada do pelo branco e sedoso da bichinha. Não comentou nada com o marido ou com as duas filhinhas pequenas, que cercaram a cachorrinha para brincar.

No dia seguinte, colocou a coleira na cachorrinha e saiu para a caminhada, ainda incrédula com a noite anterior. Cumpriu a rotina de esperar a cadelinha cheirar criteriosamente os postes e árvores da vizinhança, marcando seletivamente um ou outro com um minguado xixi. Então perto de outro matagal ouviu de novo o rosnado baixo, como se o dentro do cãozinho de luxo respirasse um lobo inesperado.

Abaixou-se e observou. Dessa vez viu, por entre o capim alto, os olhos vermelhos e brilhantes. Carolzinha respirou fundo e afrouxou a guia. A cadelinha não precisou de outro incentivo. Saltou certeira pra cima da ratazana, que estrebuchou brevemente entre os dentes da cachorrinha. Carolzinha observava com a boca aberta a destreza do seu bicho de estimação. De novo a cadela trouxe para ela o prêmio sangrento, depositado com orgulho por sobre os tênis de caminhada.

Carolzinha viu-se por um momento transportada para longínquas férias na fazenda dos avós, quando assistiu a avó matar uma galinha com rapidez e tranquilidade inimagináveis para seus olhos de menina. A mulher segurava o bicho e com uma faca afiada cortava o canto do pescoço, assim, numa rapidez de pensamento. A galinha mal se debatia ao se esvair em sangue.

Nos dias seguintes Carolzinha passou a evitar a parte mais iluminada e frequentada da vizinhança para seguir para os terrenos em construção ou ainda cobertos de mato, à espera da caçada. A cadelinha não a decepcionava, parecia um ás da caça aos ratos, infalível no modo certeiro de atingir o pescoço da presa. Em casa o marido já estava por tirar o gesso e avisou que logo poderia retomar os passeios. Afinal a esposa deveria estar cansada daquilo, já que voltava suada e com os cabelos em desalinho, obviamente uma atividade que não era pra uma moça tão delicada. Carolzinha sorriu sem graça e falou que estava tudo bem, ela aproveitava para fazer um exercício. O marido sorriu e disse que a cachorra parecia mesmo gostar mais de passear com ela, que ela então ficasse responsável pelas caminhadas. Carolzinha devolveu o sorriso, pegou a guia e a coleira, calçou os tênis que agora transmitiam uma sensação de segurança, e saiu para a caçada.

Caminharam juntas, silenciosas e esguias, por entre ruas escuras e cercadas de matagais mais altos aquela noite. Próximas a uma construção, onde o mato crescia desordenado, Carolzinha escutou o rosnado já conhecido da cachorra. Já se preparava pra afrouxar a guia quando sentiu um vulto se aproximar rápido e uma mão masculina agarrar seu pulso. Um brilho de faca. A cadela rosnou alto e por fim latiu.

– Quietinha, quietinha, não adianta gritar que aqui não tem ninguém. Vem cá loira bonita, vem pra gente se divertir.

Carolzinha se mantinha paralisada. Não gritou nem tentou correr. Ao seu lado a cadelinha latindo até a rouquidão.

– Vem cá, moça, não grita não. Vem cá quietinha, logo eu deixo você ir embora. Vem aqui comigo, não grita não.

Mas Carolzinha não gritou. Não gritou, não estremeceu, não tentou correr. Ao invés disso saltou, como a cadelinha fazia, no pescoço do homem. Seus dentes afundaram ali, bem no canto da garganta, onde a avó passava a faca para fazer o sangue jorrar, denso, borbulhante, de morte.

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INVISÍVEIS

Eram dez e vinte de uma manhã de sexta quando Ana se percebeu invisível para o marido dentro de sua própria casa. Mais que isso, descobriu que ele também tinha se tornado invisível para ela.

O fato era inexplicável. Os desacertos já eram muitos entre os dois. As palavras ríspidas, a troca de acusações, os silêncios graves, tudo se somava nos últimos meses. Mas o desaparecimento físico era tão absurdo quanto palpável.invisível-thumb-800x751-133264

Talvez tivesse começado quando ele passou a abandonar as discussões sobre política na mesa do jantar. Levantava-se e deixava Ana no meio de uma frase, o argumento vencido pela ausência.

Talvez fossem as horas que ele passava esperando ela voltar para casa, em dia de plenária. Ele já dormia quando ela voltava. Não a via mais entrar no quarto, despir-se, procurar o aconchego do corpo adormecido dele.

Talvez tenha sido a mulher que ele procurou na rua e que ela pressentiu mas escolheu não reparar. Preferiu o desprezo ao confronto.

Ou quem sabe talvez tenha sido o antigo namorado que ela encontrou num comício e de quem passou a receber mensagens quentes, que ela deixava expostas no celular para o marido ver. Mas ele ignorava.

O certo é que naquela manhã de sexta feira Ana se viu procurando pelos cômodos o marido que ela sabia estar ali mas não conseguia enxergar.

Ela tinha se levantado cedo para fazer o café. Pedro ainda dormia. No espelho do banheiro, o rosto inchado do choro da noite anterior. Escovou os dentes e ficou olhando a espuma escorrer pelo ralo enquanto chorava mais um tanto, abafando soluços na toalha de banho.

Na sala recolheu os panfletos da manifestação rasgados pelo chão, restos de mais uma discussão. A militância dela exasperava Pedro. Tolices de adolescente, ele dizia. Cabeça de velho, ela retrucava.

Ana ajeitou o que sobrou dos papéis dentro da pasta com o adesivo do partido na capa. Suspirava quando escutou o Pedro entrando na cozinha.

– Fiz o café.

Ele não respondeu. Ana continuou a recolher os restos da discussão enquanto fungava baixinho. Então foi atrás dele. Na cozinha a xícara suja estava na pia, mas Pedro já não estava lá. Chamou de novo por ele. Nada. “Agora ele vai me ignorar?”. Saiu pela sala mas não encontrou o marido. Na mesinha perto da porta as chaves dele, intactas.

– Tá de brincadeira agora, Pedro?

Nenhuma resposta e Ana teve que conter outro soluço de choro. Entrou no quarto e bateu a porta. Pegou o celular no criado e ligou para a irmã. Antes de conseguir falar foi recebida pelo grito da outra: você viu a votação ?! Ana balbuciou que sim, viu tudo. Assistiu da rua, no ato do partido. E ao chegar em casa outro confronto com o esposo.

– Você precisa parar com essa militância, Ana! Ou vai acabar perdendo esse homem!

Ela desligou e cai na cama. No celular passou olhos pela rede social. Procurou uma amiga, mas a moça tinha mudado a foto do perfil. Aquela cor detestável. Ana hesitou, bloqueou a amiga. Arrastou com crescente irritação os dedos pela tela brilhante. Jogou o celular na parede. Em cima da cômoda a foto do casal caiu. Os dois num comício, ela com aquele cabelo horrível, ele ainda de barba. Naquela época ele acreditava tanto quanto ela. No partido, no ideal, neles.

Ana rolou na cama e afogou outro longo soluço no cobertor. Foi quando escutou o conhecido tilintar de panelas vindo lá de fora.

Saiu do quarto procurando de novo por Pedro. Chamando, entrou em cada cômodo da casa. Procurou no escritório onde os livros na estante só serviam para tomar pó. No quarto de visitas vazio apenas a lembrança da promessa do filho que nunca veio. Na sala a TV ligada, mas sem som, os posters antigos de filmes de outras décadas, mais livros velhos, as recordações de viagens a dois agora tão distantes. Nada do marido.

Por fim, já meio desesperada, com o barulho vindo da rua aumentando num crescente, Ana entrou no banheiro. Abriu o box, se sentindo tola. Ao virar-se de volta, reparou um leve embaçado no espelho. Aproximou-se e sentiu o coração bater uma nota estranha. Na superfície refletida uma palavra já desaparecendo: Ana.

Ana perdeu o pé por um instante e apoiou-se na parede. Olhou para os lados, mas só via o vazio. Num instante sem pensamentos, chegou bem perto do espelho e bafejou. Escreveu rapidamente: aqui!

Outra palavra surgiu assim que o espelho tornou a se embaçar. “O qu…”, mas sumiu. Então compreendeu: Pedro estava ali! Invisível, intocável, mas ali, junto dela! Apavorada Ana saiu do banheiro procurando lápis e papel. Foi quando uma imagem na TV chamou sua atenção. O Palácio, o presidente, as panelas lá fora.

– Ele renunciou! – Ana exclamou alto, sem perceber.   

– Eu vi!! – era a voz de Pedro ao seu lado.

Ana procurou mas continuou a não ver o marido. As lágrimas agora caiam livremente do seu rosto enquanto ela lutava para sufocar o engasgo e falar.

– Foda-se isso tudo, Pedro. Foda-se. Eu te amo, eu sempre te amei. Foda-se o presidente, o partido, o mundo. Eu só queria poder beijar você.

Sentiu então o toque conhecido do esposo, os braços dele milagrosamente ao redor dela. Ele estava ali, de novo palpável, em cheiro, pele e calor. Os lábios junto aos seus.

Amaram-se no chão, em cima do carpete puído, sob a batida atordoante das panelas.


 

A GATA

Fabiana não gostava de animais. Não que os detestasse ou maltratasse. Ao contrário, na presença de qualquer criatura não humana apenas entrava num estado de leve pânico, traduzido em uma paralisia envergonhante.

Ainda criança se encolhia toda na presença de qualquer bicho, por menor que fosse. O pinscher minúsculo da tia, o poodle estridente da vizinha, o gato pachorrento da mercearia. Todos provocavam nela um pavor que não sabia de onde vinha e que a deixavam estatelada e imóvel. Mais velha, por educação, sorria para os donos ao fazer visitas, mas ainda se mantinha rígida e vigilante na presença de qualquer animal.

O medo continuou na idade adulta. Fabiana evitava a casa de amigos que tinham bichos, não passava na frente de certos portões no caminho para a faculdade, evitava percursos onde os cachorros faziam suas caminhadas matinais. Parques só os fechados, onde bicho não entrava. Pelo menos não os de coleira.

Então um dia entre uma aula e outra, sentada na cantina da faculdade, uma gata se aproximou sorrateira o suficiente para que Fabiana não a percebesse. Só se deu conta da bichana quando o miado baixo a fez derrubar seu café. Fabiana se encolheu na cadeira. A gata, talvez encorajada pela imobilidade da moça, talvez interessada no pastel em cima da mesa, pulou ágil no colo de Fabiana. O mundo parou ao redor delas, com Fabiana completamente apavorada, incapaz de falar de tanto pavor. A namorada ao lado se riu e tirou a bichinha das suas pernas.

– Ela gostou de você, amor! – e rindo afagou os cabelos de Fabiana. – Eu acho que tá certa ela!

O beijo da namorada tirou Fabiana do seu estupor. Ainda tremendo terminou o pastel e correu para a aula.

No dia seguinte a gata estava lá de novo, com seu miado fraco, seus olhos verdes, o corpo tricolor meio magro e sujo. Fabiana se encolheu mas de nada adiantou. A gata pulou no seu colo. Pediu com um fiapo de voz que a namorada a salvasse e com jeito a outra moça tirou a gatinha dali, sussurrando baixo no ouvido do animal.

O teatro continuou por vários dias. Fabiana tentou mudar de mesa, mudar de lanche, colocar a bolsa no colo, cruzar as pernas. Mas a gata vinha direto pra ela, para cima de suas pernas trêmulas. A namorada, com pena, puxava a bichana, que de tão confortável já amassava as patinhas pra se ajeitar melhor.

Fabiana já estava se conformando em ir lanchar na sala de aula quando a gata parou de aparecer. No primeiro dia, ressabiada, engoliu um sanduíche atenta ao movimento ao redor, esperando o rabo balounçante aparecer a qualquer momento. No dia seguinte sentiu alívio ao ver que a gatinha não apareceu até a hora em que voltou para a aula. Mas no terceiro dia, até para tirar a dúvida, resolveu perguntar por ela para a moça que vendia os salgados.AGATA

– Ah, menina, foi uma dó! Essa gata foi atropelada aqui do lado esses dias. Bem aí em frente dessa construção parada. Acho que tava de filhote lá dentro, ficava roubando comida aqui pra levar.

Fabiana contou sobre o destino da gata para a namorada e quedou silenciosa enquanto o professor repassava a matéria, o pensamento na gata morta, os filhotes sozinhos na construção abandonada.

De noite Fabiana sonhou. No sonho andava por um caminho escuro, de passos abafados e clima sufocante. Aos poucos escutou miados, primeiro fracos, depois num crescendo até se aperceber que estava cercada por dezenas, talvez centenas de gatos. Gatos imensos e translúcidos, de olhos negros contendo o brilho de constelações desconhecidas, que Fabiana sabia que não podia ousar encarar.

Acordou com a boca seca, a namorada ressonando leve ao seu lado.

No outro dia, no intervalo entre as matérias, não foi lanchar. Foi para a entrada da obra parada. Forçou um cadeado sem sucesso, empurrou tábuas até achar uma que cedesse um pouco. Olhando para os lados, esperou a rua esvaziar para entrar na construção. Lá dentro a poeira brilhava entre os feixes de luz que vazavam por frestas de janelas quebradas e precariamente cobertas. Fabiana andava devagar, tomando cuidado com o chão coberto de restos de cimento, pregos enferrujados, lascas de madeira. O ouvido atento a qualquer movimento. Conforme entrava na obra tinha que se abaixar mais e mais, já que partes do segundo piso mal acabado começavam a despencar. No fundo da construção encontrou uma escada improvisada, abandonada ali pelos trabalhadores. Parou e fechou os olhos. Então ouviu.

Seguindo os miados baixos subiu a escada precária até o andar de cima. O piso cedia a cada passo seu, então Fabiana se abaixou e se arrastou por entre os restos, a blusa bonita presa numa reentrância do chão, os cotovelos se ralando, o suor se misturando ao pó na testa que ela desistiu de limpar.

Achou a ninhada num canto escondido, entre trapos rasgados e restos de pastel. Fracos mas vivos, os gatinhos piscaram e miaram para Fabiana.

Ela saiu da obra como quem sai de um útero, carregando os três filhotes na mão. Suja, os cabelos desgrenhados, joelhos e cotovelos em sangue, a roupa rasgada. Lá fora a namorada de olhos arregalados a esperava, preocupada.

– Você entrou aí dentro sozinha… – a moça murmurou.

– Olha, amor, olha. Eu achei eles, tá vendo? Estão todos vivos! Eu achei eles, amor. Vão morar com a gente! Viu, amor? – e a namorada concordava atônita.

No colo de Fabiana dois dos gatinhos cochilavam, mas uma pequena gata tricolor, de grandes olhos verdes, permanecia atenta e miava, em alto e bom som.

A AVÓ

O primeiro chegou de braço dado com a neta. Sorriso largo, dentes quase tão brancos quanto o colarinho do terno caro. A moça o apresentou para a avó com um orgulho impossível de se disfarçar:

-O pai dele foi o deputado mais votado da região, vovó!…

-Do estado, querida, do estado!

E o rapaz continuou cortando cada frase que a neta insistia em começar.

A velhinha apertava os olhos e mascava calmamente a dentadura enquanto o rapaz falava alto sobre as aventuras políticas do pai. No canto da salinha da casa simples o gato gordo cochilava sem prestar atenção em ninguém. Mas quando a avó se levantou para arrumar a mesa do café ele pulou da cadeira irritado, lançando um olhar sisudo para o namorado da neta.

-Detesto gatos! – disse o moço espantando ainda mais o bichano para um canto da sala.

-Imagina, ele é um doce! Um companheiro, né, vovó… – mas foi interrompida de novo pelo rapaz, que continuou a reclamar dos gatos do mundo.

A avó foi para a cozinha passar o café. Mascou mais um pouco a dentadura e, olhando para os lados, lançou uma cusparada na xícara do moço. Deitou uma boa colherada de açúcar por cima e depois serviu o café. Levou para a sala e cerrou os olhos enquanto o namorado da neta elogiava sem graça a bebida.

-Forte! – sorriu, engasgando levemente.

-Ninguém aqui em casa gosta de café ralo. – a velha mascava a dentadura com um sorriso no canto da boca.

No fim da semana a neta apareceu sozinha.

-Ai, vovó, ele foi embora! Fugiu da cidade com a família! O pai foi pego no escândalo das ambulâncias, acho que fugiram até do país!!!

-Não era pra ser, menina, não era pra ser.

E embalou a moça recostada no sofá puído, acarinhando levemente os cabelos da neta, enquanto murmurava baixinho o que parecia ser uma reza.

Passados uns dias a moça chegou com outro moço para apresentar para a avó. O segundo rapaz era músico, cabeludo, violão debaixo do braço. Cumprimentou a velhinha com muita intimidade, elogiou os bibelôs de porcelana da estante, que chamou de genuínos. Enquanto conversavam dedilhou no violão uma canção antiga, para agradar a idosa. A velha se lembrou que detestava essa música, mas só mascou a dentadura e balançou a cabeça.

O rapaz até tentou brincar com o gato gordo, que eriçou o pelo e escapou para debaixo de um aparador. A neta prestativa foi acalmar o bicho. Enquanto isso ele sacou do bolso um celular bastante caro, pelo tamanho e brilho, e achando que não era observado – o mal dos jovens, passou o dedo pela tela e sorriu. Digitou alguma coisa e guardou apressado o aparelho quando a moça voltou para o lado dele.

Na cozinha a velha lançou outra cuspida na xícara do novo pretendente. Serviu o café com um sorriso e observou o rapaz torcer a cara enquanto forçava a bebida por entre os dentes.

Mais uns dias e outra visita da neta. De novo sozinha.

-Você não vai adivinhar, vovó! Ele tinha outra! Era noivo, imagina!! O pai da moça descobriu tudo. Graças a Deus viram que eu não sabia de nada, mas ele também saiu da cidade. Fugido! Teve até tiro!!!

-Minha nossa! Morreu?

-Não. – e a moça deixou escapar um sorrisinho. – Pegou na bunda.

E a velhinha preparou um café doce e quente para as duas.café

Então a neta passou muitas semanas sumida. Não atendia as ligações da avó, que começou a ficar preocupada. Um dia apareceu, de mãos dadas com um terceiro rapaz. De óculos escuros e rosto sério deu um beijo na avó e apresentou o moço. O sorriso dele contrastava com o jeito arredio da moça.

Sentaram-se na sala e o gato gordo pulou bufando do sofá. Arrepiado escondeu-se debaixo do aparador mas dessa vez a moça não se deu ao trabalho de ir buscá-lo.

-Você pode passar um café para nós, vovó?

A velha levantou-se mascando a dentadura e foi para a cozinha, arrastando os pés. Passou o café e separava a xícara do rapaz quando sentiu o toque leve da neta no seu ombro.

-Pode deixar, vó Teresa. Esse aqui é meu.

Foi então que a avó viu uma marca roxa no braço da moça e reparou nas olheiras fundas da neta.

A moça pegou a xícara das mãos da avó e olhou profundamente nos olhos da velha, que meneou de leve a cabeça. Então puxou do fundo do peito uma escarrada espessa, verde e purulenta, que deitou no fundo da xícara do rapaz.

Serviu o pretendente com um sorriso e sentou-se ao lado da avó enquanto ele engasgava com o café, o gato gordo entrelaçando o rabo lânguido entre as pernas das duas mulheres.

 

O VERÃO DO AMOR

Juliana teve a má sorte de ter nascido uma criança feia.

Já no berço diziam “tem saúde, né?”, e a mãe sorria conformada. Passou a infância assim, solitária, afundada nos estudos, não tanto por gosto, mas para não escutar o riso maldoso das colegas: “Ainda por cima é brega!”. Juliana abaixava a cabeça e abria outro livro.

Cidade pequena, na adolescência as coisas não melhoraram para Juliana, nem quando o corpo seco de menina adquiriu contornos. Restava a ela pentear os longos cabelos negros, promessa de uma graça que não vinha.

Não olhava para os lados e lhe parecia natural ser sozinha. Por isso quando José, rapaz tão bonito, reparou nela, Juliana demorou a compreender seus avanços.

José não tinha posses mas tinha um sorriso fácil. Juliana se encantou. Fechou os livros e abriu a penteadeira. Pediu um vestido colorido para a mãe e enfeitou o cabelo.

Eles se viam todos os dias, em algo que não era bem um namoro, mas era bom. Beijos e amassos, a primeira vez na praia, uma noite feita de sonhos.

Mas José não era egoísta em seus afetos e foi com naturalidade que apresentou Juliana a João. Moço delicado, rico, filho único dos donos da única casa chique da região, e em eterna viagem de negócios. Também com naturalidade Juliana se entregou aos dois, João e José, sempre tão doces, tão atenciosos com ela. Dividiram a cama, a rede em frente ao mar, os lábios, os corpos.

Juliana às vezes quedava-se nua entre os dois moços exaustos, mal acreditando no destino. Alisava as costas úmidas de José, tragava o seu cheiro quente. Às vezes lambia de leve o suor salgado de mar do rapaz enquanto ele dormia, estremecendo com a ousadia. Mas seu coração se enternecia com o rosto adormecido de João. Sorria e sonhava. No teto o girar monótono do ventilador refrescando o calor embalava o romance a três.

Passaram o verão todo entre beijos e carícias, segredos e sorrisos.

José dedilhava um violão surrado, João penteava os longos cabelos de Juliana, “negros como a asa da graúna”, ele dizia, e sussurrava:

– Eu nunca pensei que ia achar uma menina bonita.

E Juliana foi feliz.

No último dia das férias foram os três ao parque que visitava a cidade.

Luzes, brisa de mar, calor. A multidão e as luzes. Riam juntos, às vezes abraçados os três, às vezes as mãos dadas, um beijo, um resvalar de lábios entre os dois rapazes. A roda gigante, Juliana recostada no ombro de José, as mãos entrelaçadas com João.

Mas de longe um grupo observava o trio. Notaram os olhares, os beijos mal contidos entre os rapazes, o riso livre dos jovens. E odiaram os três.verãodoamor

Num beco atrás da parque um cerco de homens maus. Juliana estarrecida enquanto os moços eram arrastados para uma roda viva de chutes, cusparadas, agressão. Viado, vagabunda, um tiro. João no chão. Outro tiro, José. Juliana gritava, o sonho de amor interrompido como um acordar na madrugada.

Nos meados do inverno Juliana sentiu os primeiros movimentos do bebê. Balançando na rede em frente ao mar, acolhida pelos pais de João, ela lamentou a má sorte da criança. Filha de dois pais, orfã de ambos, Juliana sabia lá no fundo que esperava uma menina. Tão feia quanto ela.

PARA BENTO

Quando o barro ruim desceu os morros arrastando árvore, planta, casa, carro, gente, destruindo a cidadezinha aos pés das montanhas, poucos bichos conseguiram escapar. Não foi diferente com a cadelinha presa no quintal do Velho.

A bichinha latiu, tentou se livrar da corrente comprida em que o Velho de vez em quando a prendia para soltar as galinhas, mas não deu tempo. O Velho bem que tentou voltar para acudi-la, mas os vizinhos o levaram, arrastado, mãos agarradas aos cabelos, os gritos cortantes, enquanto a devastação alcançava a casa simples. Só deu tempo de subir pra cima do galinheiro enquanto o barro ruim arrastava a criação.

Entre gritos de pessoas e animais a cadelinha gania de pavor. Escutava o alarido nas casas vizinhas, barulho de carros e motos em fuga, os cachorros da vizinhança tentando espantar o perigo com latidos, em vão. O barro ruim parecia não ter fim.

Minutos, horas, eras se passaram até tudo se acalmar.

A cadelinha estava presa ao barro ruim, fedido. Tentou livrar as patas, mas afundou-se ainda mais.

O horror alcançava até onde a vista da bichinha conseguia ir. Um carro dependurava-se sobre uma casa, num equilíbrio precário. Os gritos das pessoas tinham cessado, mas a cachorra conseguia ouvir latidos, mugidos e até miados distantes. Latiu, choramingou, tentando se livrar do barro fedido que prendia seu corpo até quase o pescoço, até a exaustão. Aos poucos o cansaço a venceu e ela cedeu. A noite chegou pesada, quente e sem alívio.

As pessoas, elas não entendem o medo dos bichos. Acham que o bicho leva susto, tem medo, sofre, assim como dorme, come ou late. Acham que sentimento é passarinho que pousa rápido no coração do bicho. Não tem peso.

Pois as pessoas mal sabem do medo que tomou conta da cachorrinha naquela noite escura.
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O barro ruim secava prendendo seu corpinho de vira latas. O cheiro era cada vez pior, podre. Não lembrava a comida velha que ela roubava de vez em quando dos lixos da cidade. Era cheiro de desgraça e o coração da cadelinha se encolhia à medida que noite avançava.

Durante a madrugada a cadelinha cochilou, acordou, latiu até dormir de novo. Cada vez sentia-se mais presa ao barro ruim, as patas imobilizadas, o corpo e até o rabo imóveis. O peso da lama tornava a respiração difícil. E tinha a sede implacável.

A cada cochilo e despertar a cadelinha percebia que os latidos e mugidos minguavam, até que próximo do alvorecer um grande silêncio tomou o vale. Dormiu de novo.

Ao acordar com o raiar do dia a cadelinha percebeu que estava livre. Sem questionar o milagre correu portão afora para tentar achar o Velho. Não encontrou o homem nem qualquer pessoa em seu caminho. Foi se esgueirando ressabiada pelos restos da cidade.

Com o pouco espanto que permitia sua cabeça de cachorro percebeu que a cidade estava estranhamente intacta. Onde estava o barro ruim e fedido, que feria e prendia os bichos? Pois as casas permaneciam, apesar de delas emanar um estranho brilho fraco.

A cadelinha caminhou entre as ruelas conhecidas, farejando. Percebia aos poucos que o barro ruim estava ali sim, mas era como se não pudesse mais tocá-la ou fazer-lhe mal. E que por sobre o barro, a cidade que tinha sido continuava a existir, do jeitinho que ela bem lembrava. Ela não sabia , na sua inocência de bicho, que era apenas para os olhos que podiam ver.

Então a cadelinha percebeu um movimento. Tinha gente na cidade. Pelo costume começou a acompanhar as pessoas, um cordão de gente quieta, pálida e solene, que se dirigia à igrejinha branca. Parou na porta pois sabia que os homens não gostavam de bichos ali dentro. As pessoas entraram e a cadelinha deitou-se na soleira, para esperar.

O sol já ficava alto no céu, iluminando o vale.

A cadelinha cochilava quando uma mãozinha leve tocou sua orelha, um carinho. Olhou pra cima e viu uma menininha bonita, de cabelo cacheado, sorrindo pra ela. Da menina também emanava um brilho leve e a cachorrinha se levantou.

Seguiu a menininha pelas ruas estreitas da cidade agora encantada, abanando, pela primeira vez, o rabo livre da lama.

 

 

*Para Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo, Barra Longa, Valadares e tantas cidades que o desastre da SAMARCO/VALE/BHP devastou. Para todo o Rio Doce.

A VELHA

A velha morava sozinha num casarão decadente no final de uma ruazinha de subúrbio. Não tinha amigos. Os vizinhos mantinham distância quando ela saía à rua. Tinham nojo do seu jeito desgrenhado, do cabelo sujo, das roupas puídas. Não ajudava também o fato dela andar arrastando um carrinho de supermercado cheio de tralha recolhida do lixo. As crianças da região a chamavam de bruxa. Pelas costas, claro.

Não tinha parentes vivos. O marido morreu de acidente numa construção. Bebida demais. Os sete filhos, todos homens, também não sobreviveram para lhe fazer companhia na velhice. Um de tiro, outro de doença, outro atropelado, um a um morreram jovens, sem tempo para criar famílias próprias. Nem nora, nem neto para dar apoio à velha.

Os vizinhos mais antigos ou morreram ou se mudaram quando o bairro começou a crescer. As casinhas antigas aos poucos cederam espaço para novos imóveis, prédios mais altos, comércio. Só o casarão escuro, de janelas sempre cerradas, pintura descascada, mato tomando conta do jardim e telhado furado, sobreviveu. Dentro dele a velha solitária, juntando cacarecos achados no lixo.avelha

Claro que para a velha não eram cacarecos. Ela saía de manhã, mascando a dentadura, rindo baixinho e arrastando os chinelos, para fuçar nas lixeiras da vizinhança. Não procurava comida ou roupas usadas. Tinha seu dinheirinho bem guardado e não passava necessidade, ao contrário do que pensavam os poucos vizinhos que se preocupavam com ela.

O que a velha procurava nos sacos bem embalados eram lembranças jogadas fora. Mas não qualquer lembrança. Ela vasculhava os lixos buscando fotos rasgadas de romances desfeitos. Caçava cartas de amor despedaçadas, com marcas de choro. Tinha especial apreço por fotos onde os rostos dos ex-amantes apareciam riscados, amor destruído em efígie. Juntava tudo no carrinho e arrastava as memórias dolorosas dos outros para dentro da casa escura. Lá organizava cada foto em álbuns, remendava com paciência as cartas despedaçadas. Por vezes achava um ursinho, presente do afeto que o tempo tratou de transformar em desamor. Estes ela colocava no alto da estante já cheia de papéis velhos, uma coleção devotada aos amores perdidos. Depois coava um café ralo na cozinha e sentava-se na sala para olhar as fotos alheias. Era nessa hora que ele costumava aparecer.

O diabo não fazia barulho, mas a velha já sabia quando ele entrava na sala. Pressentia o cheiro enquanto arrumava o café. Deitava então mas um tantinho de pó no coador usado e colocava mais uma xícara na mesa. O diabo não gostava de café ralo mas sempre tomava um golinho.

O diálogo entre eles era sempre mais ou menos o mesmo. Ele perguntava da vida, das andanças da velha, e por fim da coleção de fotos e cartas rejeitadas. Ela então mostrava o que tinha juntado na semana. O diabo folheava os álbuns com paciência e de vez em quando exclamava algo. Esse eu conheci! Essa era da pá virada! Esse vivia no bar, gastou o dinheiro do vestido da noiva em jogo! Esse fugiu com a amante no dia do casamento! O diabo gostava de olhar a coleção da velha e tomava umas duas xícaras do café ruim antes de ir embora.

Satisfeito de tanto remexer a desgraça alheia ele levantava-se ajeitando o chapéu, para disfarçar os chifres, e perguntava meio sem graça: a senhora tem mais alguma coisa para mim hoje? A velha balançava a cabeça e o diabo suspirava. Sumia com ar de cansado.

A velha então lavava as xícaras, guardava os álbuns surrados. Depois de tudo ajeitado e de se certificar que o diabo tinha realmente deixado a casa, pegava uma chave presa numa corrente em volta do pescoço, destrancava uma porta embaixo da escadaria e entrava de mansinho no porão, ainda mais escuro que o resto da casa. Tratava de rapidamente fechar a porta atrás de si e só então acendia a luz.

Lá dentro outras estantes e uma outra coleção. Essa sim preciosa para a velha. Aquela que ficava na sala se destinava a entreter o diabo. Mas a do porão era seu orgulho.

Nas estantes que subiam até o teto do porão vários vidros e garrafinhas, cada um contendo um diabrete minúsculo. A velha se aproximava para observar de perto os famaliá. Logo que percebiam a presença da velha as criaturinhas se exaltavam dentro das garrafas. Uns arreganhavam os dentes, outros batiam os pequenos cascos fendidos contra o vidro, alguns amuados se recusavam a olhar para a velha. Ela então batia no vidro até o bichinho se irritar e avançar inutilmente contra a parede da prisão mágica. A velha ria-se com gosto.

Passava um bom tempo ali e depois trancava de novo a porta do porão, deixando bem guardada sua coleção de diabretes. Enquanto ela os tivesse bem presos o diabo voltaria. Tinha esperança de libertar suas crias demoníacas. E o diabo tinha uma boa prosa. A velha não queria perder sua única companhia para o café ralo das tardes no casarão escuro.

A NOIVA

Lenira achou que o pior dia da sua vida tinha sido aquele em que foi abandonada na igreja pelo noivo. Lenira estava errada.

Para ela não poderia existir momento pior do que aquele em que os minutos de espera pelo noivo se transformaram em horas de angústia, trancada com a mãe na sacristia enquanto os parentes e amigos falavam cada vez mais alto lá fora. Não poderia haver instante mais massacrante do que aquele em que a prima irrompeu na salinha abafada para dar a notícia, com a ansiedade de quem conta uma desgraça que não lhe diz respeito. Quinzinho tinha fugido com a moça da loja de lingerie, já estava no Rio de Janeiro e ia embarcar para a Europa com as passagens que comprou com Lenira. Sim, a cidade toda já conhecia a totalidade  da sua desgraça.

vestidodenoivaNos dias que se seguiram à tragédia Lenira flutuou pela sua vida como um fantasma, sem se dar conta do que acontecia ao redor. Lembrava-se vagamente do choro contido da mãe se transformar em pranto enquanto ela tirava o véu e a tiara da cabeça da filha. De sair com olhos anuviados pela porta dos fundos da igreja vendo de longe o aglomerado de amigos e familiares que cochichavam.  Do pai segurando a longa cauda do vestido de noiva para que ela entrasse no carro chique sozinha. A prima que deu a notícia rindo baixinho com as amigas.

Lenira achava que não podia existir nada pior do que isso, mas o tempo e as pessoas provaram o contrário.

Nas ruas da cidade pequena não existia outro assunto. Entre risos e fofocas o povo dava conta de todos os detalhes, reais ou imaginados, do escândalo. O casal fugido teria se conhecido quando o noivo foi comprar um presente surpresa para a noiva de tantos anos na loja de calcinhas. A pedido do rapaz a vendedora teria experimentado a lingerie “para ele ver como ficava” e ali mesmo, entre as caixas do depósito, teriam consumado a paixão fulminante. Combinaram a fuga e para que Lenira não se apercebesse de nada, deixaram para escapar no dia do casamento. Levaram alguns presentes caros já recebidos dos parentes mais distantes. Limparam a conta corrente que Lenira tinha com o noivo.  E as passagens para Paris levaram os apaixonados para a Europa enquanto Lenira se desfazia em pranto, acreditando que nunca mais ia conseguir parar de chorar.

Toda vez que Lenira saía de casa percebia os olhares, uns de dó outros de riso, e corria de volta pra casa.

As vizinhas davam um jeito de fazer uma visitinha, levar um de comer, mas sempre guardavam alguma palavra maldosa para Lenira por trás das amabilidades de comadres. Ela não tinha percebido nada? Noivado longo dá nisso. Devia ter agarrado ele antes, sabe? Já tinham transado?! Então foi isso, mulher que se entrega antes do casamento perde a graça. No fundo a culpa foi sua, sabe, Lenira? Homem não gosta de enrolação.

Nem do vestido de noiva ela conseguiu se desfazer. Em uma cidade onde todos sabiam do seu destino quem iria querer um vestido de má sorte?

Semanas depois de ser abandonada no altar Lenira caiu de cama. Não falava, não comia, não respondia à mãe, nem sequer dormia. Ficava de olhos bem abertos, fitando o teto branco do quarto. Tão branco quanto seu vestido de noiva.

O pai chamou o médico da família que mediu pressão, temperatura, tirou amostra de sangue e deu o diagnóstico de doença dos nervos. O jeito era esperar passar, tentar alimentar a moça como possível e não deixá-la desidratar. O tempo cura tudo, disse o velho doutor. Se ela não melhorar, chamamos um psiquiatra da capital.

Os dias e as semanas se passaram. A mãe de Lenira alimentando a filha como a um bebê, com canja rala dada na boca, a moça com o olhar perdido no teto do quarto. Com tristeza via a filha definhar. Então chegaram notícias do Rio de Janeiro.

Quinzinho e a amante tinham voltado do estrangeiro direto para o hospital. Uma intoxicação alimentar feia. A moça estava melhorando, mas o estado do ex-noivo era grave. A mãe de Lenira achou melhor não contar para a filha, pra não piorar seu estado de nervos.

A cidade mudou de assunto.

Na mesma semana a prima que deu a notícia da fuga e que se riu com as amigas do destino triste da parente, se engasgou com uma maçã e quase passou dessa pra melhor.

Nos dias seguintes uma vizinha, a comadre mais faladeira, caiu dura enquanto varria o quintal. Outra se seguiu, menos de uma semana depois. AVC, disseram. A cidade foi emudecendo lentamente.

Lenira continuava na sua cama, fitando o infinito teto branco.

E então a terceira comadre foi encontrada morta, estatelada no chão da cozinha. A chaleira abandonada apitando mansinho. As pessoas começaram a mandar flores e presentinhos para a casa de Lenira.

Outra notícia. A amante tinha voltado ao hospital. Horas depois estava morta.

Novena na porta da casa de Lenira.

Mas quando um vizinho chegou falando alto que o ex-noivo não tinha resistido e estavam trazendo o corpo pra enterrar na cidade foi impossível esconder o fato de Lenira. O homem tremia enquanto berrava: Quinzinho morreu! Morreu!!! Está morto o noivo, está morta a amante! Onde está sua filha, mulher?!

A mãe escutava incrédula sobre a morte do rapaz que tanto mal tinha trazido para sua filha quando escutou uma voz fraca vinda do quarto: Estou aqui, mãe. Lenira tinha acordado.

O vizinho saiu correndo porta afora. Não fugiria tão depressa se tivesse dado com uma assombração.

A mãe foi acudir a filha. Lenira estava sentada na cama, pálida, magra, esgotada. Mas estava de volta. A mãe a agarrou num abraço apertado. Entre lágrimas, enquanto embalava a filha, olhou o teto branco do quarto e percebeu pequenas rachaduras num canto, pequenas trincas que ela não se lembrava de existirem antes. Pareciam o bordado de um véu de noiva.

Na cidadezinha nunca mais ninguém riu de Lenira.

A MULHER PERFEITA

Amália era uma mulher sem defeitos. Casada, três filhos homens, dois já na adolescência, advogada de sucesso, conseguia manter casa, crias e marido com perfeição e ainda assim permanecer bela e irretocável. Sempre no salto agulha, saia no joelho, nem muito sexy, nem muito carola, Amália parecia saída de um editorial de moda para mulheres de sucesso. Sempre e todo dia.

mulherperfeita2Levava os filhos para a escola e seguia para o trabalho. De alguma forma conseguia manter a casa impecável mesmo com a rotina corrida. E olha que não era uma casa pequena. Com o marido trabalhando com ações e sendo sócia da firma de advocacia dinheiro era o que não faltava. Uns anos atrás, depois de (mais uma) noite de sexo maravilhosa, o marido sugeriu uma doméstica, diarista que fosse, para ajudar nas tarefas. Amalia sorriu, tranquila. De forma alguma, ela dava conta de tudo sozinha. O marido agradeceu aos deuses sua sorte, essa mulher lindíssima e que dele nada exigia. Nunca precisou sequer trocar a fralda de um dos meninos, a esposa sempre se virou muitíssimo bem sem ele. Afundou o rosto nos seios incríveis da mulher e entregou-se ao sexo mais uma vez. Nunca mais falaram de empregada e Amália seguiu com seu jeito raro, inexplicável, de ser uma mulher perfeita.

Na escola dos meninos a mesma paz. Notas boas, comportamento irreprensível. Vez por outra um menino mais desaforado implicava com os filhos de Amália. Os garotos puxavam para cima a média da turma e atraíam o ódio dos que ficavam pra trás. Amália jamais se abalou. Chamada pela diretora constrangida, sorria como sorria para o marido, calmamente. Isso é coisa de criança, imagine, está tudo bem. Depois dava um jeito de conseguir o endereço e telefone dos pais das crianças. Mandava uma cesta ou algumas flores, depois uma ligação, uma troca de amabilidades. As agressões cessavam como que por encanto.

Nem no trânsito Amália se abatia. Não se irritava com fechadas, gritos, a falta de educação comum das grandes cidades. Enfrentava engarrafamentos com o sorriso impassível dos santos. Chegava no escritório com o cabelo e o terninho no lugar, nem um sinal de desalinho, suor ou cansaço. Saía da mesma forma, perfeita.

Filha de gente simples, Amália saiu da universidade pública para um escritório de uma sala só em um prédio do centro, antigo e depredado. Em dois anos foi convidada para estagiar em um escritório de sucesso e em menos de cinco virou a mais jovem associada, sem uma causa perdida na carreira em ascensão.

Entre as amigas Amália atraía tanta admiração quanto inveja. Talvez mais inveja, agora que os anos começavam a avançar e Amália não mostrava qualquer sinal de idade. Como pode? Como ela consegue? Plástica? Botox? Ritalina? Cocaína? Como ela não deixa essa peteca cair? Mas Amália se mantinha acima das maledicências. Irretocável, impassível, sempre com o sorriso inabalável no rosto e o salto agulha nos pés.

Mas Amália sempre conseguia um tempinho só para si. E esse era o seu pequeno segredo.

Sempre nas luas minguantes Amália dava uma desculpinha para o marido feliz e saía de carro pela cidade, numa busca com objetivo certo. Parava em becos e procurava, às vezes levando uma lanterna consigo. Demorava mas encontrava sempre uma ninhada de cachorrinhos novos, de rua. Com um pouco de carne enganava a cadela e surrupiava um filhote. Fazia isso sempre com uma pontada no coração. Gostava mais de bicho do que de gente.

Amália então dirigia um tanto mais, para fora da cidade, por caminhos que ela conhecia bem. Entrava numa estrada de terra, alguns quilômetros de chão batido, até um ponto aonde ainda existia uma mata mais cerrada.

Amália desce então do carro, o filhote entre os braços, adormecido. Acha entre a mata uma pequena clareira. Traça no chão os símbolos do seu chamamento e inicia o ritual. O cãozinho é abatido num corte rápido e sem dor, porque depois de muitos anos Amália já conhece bem o seu ofício de bruxa. Nua, aguarda a chegada do seu amante.

O cheiro próprio dos que não são deste mundo toma conta da mata e silencia os bichos da noite. O ser de cascos fendidos se aproxima de Amália que o abraça amorosa, o sorriso perfeito se esvaindo finalmente.

– Como você está, querida?

– Cansada…

– Normal, né?

– Sim. Mas mesmo assim, cansada.

– Precisa de alguma coisa?

– O de sempre.

– Vou providenciar, meu amor. Agora vem aqui e fique um pouco comigo, pois eu tenho saudades de você.

Então o diabo senta-se no meio do pentagrama traçado no chão e Amália se deita no seu regaço frio e, finalmente tranquila, dorme até o alvorecer.

A DEVORADORA DE LIVROS

Cecília era o que poderíamos chamar de uma leitora voraz. Não da forma como se imagina normalmente. E no entanto. Cecília devorava livros. Literalmente.

O hábito começou na adolescência. Desde bem pequena ela adorava ler, mas uma ansiedade a acompanhava sempre. Cecília se ressentia do final dos romances.  Não conseguia abandonar as novelas, lia e relia os poemas, se agarrava aos versos e às personagens, cada última página um verdadeiro suplício para ela. Tentou comprar edições diferentes do mesmo livro, reler os volumes, emprestar para os amigos na esperança de que eles lessem e a ajudassem a recuperar um pouco do prazer esvanecente ao discutir a trama adorada. Mas poucos amigos liam. E ainda menos discutiam com ela de forma a recuperar a alegria verdadeira da leitura. Contentou-se com a leitura solitária e a ler e reler os livos amados, cada palavra decorada, as páginas amarelando, criando dobras, as capas amassadas e puídas.

devoradoradelivrosAté que um dia, num acesso de desespero, arrancou a última página de um volume de Clarice Lispector e a comeu inteira. O prazer quase a fez desmaiar. Precisou se deitar um pouco, o peito resfolegando, para recuperar o ar. Finalmente um livro era seu, realmente seu.

A partir daí Cecília refinou o hábito. Tentou comer um romance russo e teve indigestão. Passou então a selecionar as passagens preferidas, algumas frases. Por vezes arrancava uma página inteira, mas isso era para poucos e selecionados autores. Picava o papel bem picadinho e comia com delicadeza as palavras, sentença após sentença.

Tornou-se uma leitora única, uma apreciadora das gramaturas dos papéis, da escolha editorial dos seus livros. Conhecia a cada uma pelo cheiro, peso, textura. Conheceu o sabor dos livros antigos, as delícias do papel-bíblia tão fininho e delicado, o dulçor de uma edição rara e esgotada.

Na faculdade Cecília precisou se tornar cuidadosa. Em casa ninguém dava conta das páginas faltantes em seus inúmeros livros, mas com a bibliotecária da universidade a coisa era diferente. Passou a selecionar pequenas passagens, às vezes uma só palavra e recortá-la meticulosamente com estilete. Depois do volume devolvido se trancava no quarto da república de moças e saboreava seu pedaço de livro, como se fosse um coração palpitante arrancado do peito de um guerreiro selvagem, sua essência para sempre dentro dela.

E assim Cecília passou pelo curso superior, fez mestrado e defendeu uma tese de sucesso no doutorado, sempre devorando livros. Ao longo da escrita da tese tornou-se admiradora de uma pequena editora carioca, de livros de sociologia, psicologia e afins. Os volumes eram bem cuidados e tinham um sabor divino. Quem seria o editor de tão deliciosas iguarias? Cecília deleitava-se com os livrinhos de capa dura, tão raros hoje em dia, com papel bem escolhido, fino, não vulgar. Lia, relia e depois se deleitava engolindo páginas e páginas da editora. “Le Lecteur Vorace”, até no nome parecia haver um convite para ela.

Tempos depois da sua defesa, já professora na sua faculdade, viu-se diante de uma oportunidade única. Num congresso em que ela seria palestrante a pequena editora tinha montado um estande. Um único representante cuidava dos livrinhos preciosos. Era o editor chefe! Cecília tremia de emoção. Durante o coquetel apresentou-se e logo ele se desmanchou em gentilezas. Cecília era culta e muito bela. O editor a presenteou com o mais novo livro da editora, uma tradução de um obscuro autor alemão de filosofia. Cecília sorria, sem nunca levar a taça exatamente aos lábios.

O editor bebia e gesticulava, Cecília sorria e concordava com cada palavra. Ele já estava bem alterado quando foram para a sua casa. No carro ele enfiou a mão por baixo do seu vestido e ela o afastou com carinho. Calma, estamos quase lá, não seja guloso.

Entraram no sobrado escuro, repleto de livros. Livros cobrindo estantes, cantos, espalhados pelo chão. O editor tropeçou e riu. Você gosta mesmo de ler! Não teve tempo de terminar a frase. Cecília o acertou na nuca com um volume de capa dura de Guerra e Paz.

Cada pedacinho do editor foi saboreado com deleite. Cecília o fatiou em partes e guardou no freezer, para que nada se perdesse. Quando terminou nunca mais precisou comer um livro. Tinha enjoado do sabor.